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quinta-feira, 20 de agosto de 2009

Deixa-me ir




Deixa-me ir, desaparecer no ar, levada pelos raios de sol, para o lado oposto do teu mundo, em que eu não te imagine, nem saiba que existes, nem que vives ou onde estás...


Deixa-me ir, ser levada pelo fumo de um cigarro para a extractosfera longínqua, pela corrente do rio, como uma gota de água que não mais volte à nascente, como um cristal de sal diluído, ao sabor da maré, que nunca retorne a terra, nem no peixe que vá ter à tua mão ou ao teu estômago...


Deixa-me ir, partir de vez, separada do nosso Karma e libertada definitivamente de nós, como duas rectas paralelas, que se mantêm prazeirosamente afastadas e longínquas, ignorantes dos seus percursos, livres da prisão do Universo e da roda do Destino...


Deixa-me ir, sem nos voltarmos a cruzar, através de várias vidas, solta de vez das tuas grilhetas invisíveis, poderosamente incrustadas e presentes...


Deixa-me ir, ser descontaminada de ti, lavada a alma e o inconsciente, sem alguma vez aflorar ao pensamento, qualquer imagem de déjà vu...


Deixa-me ir, ser levada pelo vento, permanentemente ausente, longínqua no pensamento e no espírito, deixa-me ascender ao paraíso da tua não-existência, amnesicamente apagada...


Deixa-me ir, no sossego do nada, da inconsciência do não saber, do não pensar e não sentir...


Deixa-me ir, ser eu sem ti, apenas como era e como fui, a apreciar a saborear tudo o que vinha até mim, com o gozo insano e irreverente de uma criança quase morta de curiosidade ...

Deixa-me ir como o lixo, levado para os depósitos e que é esquecido para sempre, deixando de fazer parte da tua realidade...


Deixa-me ir como o primeiro degelo, de águas esquecidas e obscuras, desaparecidas há muito, desconhecidas as origens...


Deixa-me ir como a recordação do teu primeiro momento consciente, em criança e que não mais foi pensado nem sentido nem idealizado, muito menos consciencializado...


Deixa-me ir, solta-me de vez, e que eu, liberta, ascenda pelo ar, evolua na minha cadência lenta, pelas espirais do tempo, sem jamais voltar a qualquer ponto comum, através do mundo, das dimensões e das várias encarnações...

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